A cegueira começa no Palácio dos Bandeirantes

159ª Sessão Ordinária – 6 de setembro de 2008

Sr. Presidente, Sras. e Srs. Deputados, hoje é uma quinta-feira insólita. Hoje, abateu-se sobre a base do Governo um pensamento do José Saramago, que agora, inclusive, virou filme, que é o “Ensaio Sobre a Cegueira”. Nesse filme o Meirelles  retratou muito bem, apesar de eu achar que o livro trata até com mais detalhes, com minúcias. Mas essa situação em que as pessoas vão perdendo a visão e ao mesmo tempo o governo vai se esvaindo, o processo civilizatório vai se perdendo e tudo aquilo que a humanidade construiu, a partir do momento que as pessoas não têm mais a visão, se desfaz.

Esse processo de cegueira começou no Palácio dos Bandeirantes, no gabinete do Governador. Foi para a Secretaria da Segurança Pública e agora chegou na Assembléia Legislativa.

Os deputados da base de sustentação do Governo nesta quinta-feira, em meio a uma greve que já passa dos 50 dias, não estão enxergando – aqueles que falam em nome do Governo – onde está o plenário. Essa cegueira de que fala José Saramago se abateu sobre a base de sustentação do Governo. O que quer o Governo do Estado? O que quer a base de sustentação do Governo? Prolongar a crise? Prolongar a greve? Provocar o esvaziamento das nossas delegacias? Fazer com que a oposição fique no plenário aguardando sem ter um projeto para ser discutido? Fazer com que as entidades se cansem e a greve se esvaia? É isso que quer o Governo do Estado? Só que ele não assistiu ao filme, que poderia ser visto em uma hora e meia – não vou nem cobrar a leitura do livro – e não soube que algumas pessoas não perderam a visão. Em “O Ensaio sobre a Cegueira”, de José Saramago, nem todos perderam a visão. Alguns continuaram enxergando as coisas. Este é o papel da oposição, hoje, e dos senhores que estão nessa paralisação há mais de 50 dias: enxergar essa crise na Segurança Pública. E o nosso papel neste plenário é fazer com que a base de sustentação do Governo entenda que 6,5% para o ano que vem e 6,5% para o próximo ano não vão resolver o problema da Segurança Pública no Estado de São Paulo. (Manifestação das galerias.)

Se o Governo do Estado e a base de sustentação do Governo nesta Casa acham que todos estão cegos, se enganam, porque a oposição está enxergando e muito bem e as entidades, associações e sindicatos também estão enxergando muito bem. Portanto, não vai conseguir resolver o problema da greve achando que vai cansar o movimento e a oposição porque estamos enxergando, a exemplo daquela personagem do filme “O Ensaio sobre a Cegueira”, que guiou os demais. Vamos fazer o nosso papel e vamos contar, com certeza, com o apoio dos senhores nessa relação – eu diria até dialética – de que quantidade não é qualidade e qualidade é quantidade, ou seja, um mais um é muito mais do que dois nesse processo, porque um policial civil, um profissional da área da Segurança também é um agente social, ele faz um trabalho social.

Por isso quero  reafirmar a sugestão do Deputado Olímpio Gomes para que neste final de semana o movimento seja engrossado com a pressão dos deputados que moram no interior, e também com os da capital, para que possamos entrar na segunda-feira com a base de sustentação do Governo entendendo que é necessário alterar os projetos, ou seja, 15% retroativo a 1º de março, 12% para o ano que vem e 12% para o próximo ano. (Manifestação das galerias.) Este movimento, engrossado e com o apoio da oposição, que ainda não perdeu a visão, será vitorioso e vamos poder inclusive estabelecer uma pauta que, na minha avaliação, é a pauta estratégica para a Segurança, qual seja, fazermos de fato no Estado de São Paulo uma profunda reforma na estrutura da Segurança Pública: uma unificação, um plano de cargos e carreira universal, republicano, e não essa questão colocada hoje que, na nossa avaliação, tem depreciado a profissão do profissional de Segurança Pública e feito com que ocorra um desestímulo muito grande.

É por tudo isso que quero parabenizar o movimento e também as entidades nacionais, que vão organizar uma paralisação nacional de solidariedade – isso é importantíssimo – no dia 19 de novembro. Esperamos que o final não seja triste como o do livro de José Saramago. (Manifestação das galerias.) Que a base de sustentação do Governo possa recuperar a visão e enxergar a importância do Estado de São Paulo e dos profissionais de Segurança Pública. (Manifestação das galerias.)