
No último sábado (24 de janeiro) foi inaugurado o Memorial da Resistência – espaço museológico sobre o período da ditadura militar instalado na Estação Pinacoteca (Largo General Osório, 66 – Centro/SP). O projeto, retomado por pressão do Fórum de Ex-Presos e Perseguidos Políticos do Estado, foi reaberto com uma cerimônia de homenagem aos militantes torturados no local onde funcionava o antigo Dops (Departamento de Ordem Política e Social). A solenidade de inauguração, no entanto, foi atrasada em três horas à espera do governador do Estado, José Serra (PSDB), que, ao final, negou-se a dar sequer uma declaração sobre o resgate histórico das agruras ali sofridas por milhares de lutadores e lutadoras contra o regime militar.
No horário marcado, centenas de pessoas se aglomeravam no hall de entrada do museu após conferirem o processo de restauração de quatro das celas que funcionaram no antigo prédio de cinco andares.
O clima pesado que os cubículos ainda guardam – apesar de mesmo com o restauro não ter sido possível retomar plenamente a realidade do que eram aqueles espaços durante o período ditatorial – era visível nos rostos emocionados, em alguns olhos marejados e no certo mal-estar expresso por algumas pessoas que deixavam as “celas” logo após a visitação.
Nesse ambiente, militantes, filhos de ex-militantes e pessoas que foram ao local por interesse histórico, aguardavam as palavras dos integrantes do Fórum de Ex-Presos e Perseguidos. A cada meia hora, no entanto, uma voz ao microfone alertava aos presentes que a cerimônia seria atrasada pois eram aguardadas as presenças dos ministros da Justiça e da Secretaria Especial dos Direitos Humanos, Tarso Genro e Paulo Vanucchi, respectivamente, bem como do governador do Estado.
Por volta do meio-dia, os representantes dos ministérios chegaram ao local. Vários ativistas, especialmente ex-presos que tinham ido prestigiar a inauguração já estavam incomodados porque tinham outros compromissos e precisavam se retirar.
Às 12h15, o grupo Teatro Popular União e Olho Vivo, dirigido pelo advogado Idibal Pivetta – que passou 40 dias preso no Dops em 1969 – reanimou os visitantes com uma emocionante apresentação teatral. O espetáculo foi aberto com a animada Guantanamera, seguida da música-tema da peça “A Lenda de Sepé-Tiaraju”, Silêncio no Bixiga, o Hino da Internacional Socialista e pelo Hino Nacional em ritmo de samba. Um bis de Guantanamera, a pedido dos presentes, encerrou a apresentação.
Após mais uma hora e meia de espera, o salão foi esvaziando e só às 14 horas o governador José Serra chegou. Visivelmente irritado, ouviu os discursos do diretor da Pinacoteca, Marcelo Araujo, do representante do Ministério da Justiça, Rogério Basili, e dos membros do Fórum de Ex-Presos e Perseguidos Políticos, Rafael Martinelli e Ivan Seixas. Logo após, falou o secretário de Cultura, João Sayad. E Serra, esperado para encerrar a solenidade, recusou-se a discursar, o que causou grande constrangimento aos organizadores do evento.
Apesar da gafe do governador – que demonstra um profundo desrespeito à memória daqueles que deram suas vidas para que hoje vivamos em um regime democrático –, é importante ressaltar a importância do Memorial como parte do resgate histórico das lutas de resistência travadas em nosso país. Vale a pena visitar o Memorial, que ao longo deste ano terá várias atividades em homenagem aos lutadores contra os regimes repressores e para lembrar que é necessária a permanente vigilância do povo para evitar que novamente se instale no país uma ditadura.