
Jornal da Cidade de Bauru – Rodrigo Ferrari |
Militantes de partidos de esquerda e integrantes de movimentos sociais lotaram o auditório da Câmara Municipal, ontem à noite, para um ato em defesa da reforma agrária. O encontro, proposto pelo vereador Roque Ferreira (PT), contou com a presença dos deputados estaduais Raul Marcelo (Psol) e Simão Pedro (PT), além do jurista e ex-deputado constituinte pelo PT Plínio de Arruda Sampaio – que, nas últimas eleições, concorreu ao Governo do Estado pelo Psol – e do membro da coordenação nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST) Gilmar Mauro.
O evento foi uma resposta àquilo que os próprios participantes definiram como a “criminalização dos movimentos sociais”. Os discursos foram repletos de críticas ao modo como a Polícia Civil e a Secretaria de Segurança Pública conduziram as investigações da ocupação da Fazenda Santo Henrique, em Borebi, alvo de uma disputa judicial entre o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária e a Sucrocítrico Cutrale, que diz ser dona da área.
Os sem-terra são acusados pela empresa de depredar e furtar materiais que estavam guardados na propriedade, bem como destruir 3 mil pés-de-laranja. Os integrantes do movimento, por sua vez, alegam que a área pertence à União e foi grilada pela Cutrale.
No último dia 26, a Polícia Civil cumpriu mandados de prisão contra 17 militantes do movimento e alguns membros do diretório do PT em Iaras. Nove pessoas foram presas e encaminhadas a diferentes cadeias públicas da região. A ação envolveu centenas de homens e viaturas e foi amplamente divulgada pelos meios de comunicação.
Para Simão Pedro, as prisões dos militantes do MST fazem parte de uma ofensiva dos grupos que se opõem à reforma agrária. “Tentam partidarizar a questão e desestabilizar o principal movimento que atua na luta pela terra”, disse. Raul Marcelo fez críticas pesadas ao Governo do Estado, hoje sob o comando do PSDB. “Estamos diante de uma prisão política que serve aos interesses de José Serra (virtual candidato da oposição à Presidência, nas eleições deste ano). Infelizmente, no Brasil, a ‘letra fria da lei’ ainda serve, muitas vezes, a interesses escusos”, atacou.
Plínio, que é advogado da Associação Brasileira de Reforma Agrária (Abra), fez um discurso ácido, com alguns toques de ironia. Ele contou que, recentemente, compareceu ao Senado Federal para uma audiência que tratou da ocupação da Fazenda Santo Henrique.
“Em certo ponto de minha explanação, um dos senadores me questionou: ‘Mas o que o senhor acha a respeito da destruição dos 3 mil pés de laranja?’ Respondi: ‘O sem-terra erraram. Deveriam ter derrubado umas 30 mil árvores, pelo menos. Aquela área nunca pertenceu à Cutrale. É terra pública’”, disse. Gilmar Mauro também recorreu ao sarcasmo. “As árvores que deram origem a essa polêmica (os pés-de-laranja) vieram bem a calhar. O fruto delas tem muita vitamina (C). Muita gente no Congresso e nos tribunais deve estar recebendo uma ‘vitamina’ da Cutrale”, disparou.
Para Roque, as prisões refletem a faceta autoritária do Estado. “Elas reforçam no senso comum a ideia de que lutar pelos próprios direitos é coisa de bandido”, disse.